
Entre as 4 paredes daquele quarto escuro, ela sentia que sua alma iria se romper a qualquer instante, tão dividida estava entre a alegria do reencontro e a dor da despedida inevitável.
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Cinco anos atrás ele a abandonara sem qualquer explicação. Era impulsivo, não se prendia a lugares e pessoas, e ela sentia em seu íntimo que não iria durar. Mas não esperava que terminasse tão cedo.
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Naquela sexta feira não estava com vontade de sair, mas por insistência das amigas raspou as pernas e se espremeu naquele tubinho preto que lhe custara quase um mês de salário. Calçou o scapin de saltos tão altos que a fazia ter dor na coluna, mas deixava suas pernas longas e sensuais. Soltou os cabelos rebeldes sobre os ombros, apanhou a bolsa, e saiu, pois o táxi já a esperava.
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O pub estava cheio, e sentiu-se enjoada com o cheiro de cigarro que tomava o ambiente. Localizou o grupo sentado à um canto e para lá se dirigia quando um homem alto, atlético e bronzeado postou-se em seu caminho. Sua primeira reação foi afiar a língua para soltar diversos impropérios, mas assim que ergueu os olhos o ar pareceu fugir de seus pulmões. Era Marcos, olhando-a com aqueles olhos selvagens, que sorriam descaradamente.
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Pensou em agir com elegância, pedir licença e continuar como se nada houvesse acontecido. Pensou em esmurrá-lo na barriga, a barriga malhada que ela tão bem conhecia. Pensou em virar as costas e voltar para a segurança de seu apartamento bagunçado. Mas antes que pudesse tomar qualquer atitude, ele a pegou pelo braço, sem uma palavra e levou-a para fora.
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A noite estava fresca e o ar úmido. Carros passavam a toda velocidadena avenida.
- Você está linda. Ainda mais linda do que me lembro.
- Você também não está mal... - disse tentando forçar um sorriso e tentando convencê-lo (e à si mesma) de que havia seguido em frente.
- Eu estou na casa de uns amigos, não quer ir até lá beber uma cerveja e jogar conversa fora? Não vamos conseguir nos entender aí dentro.
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"Não!" - essa era a resposta que estava na ponta da língua, seguida de "Vai tomar no cu seu fdp insensível!". Mas ouviu uma voz que reconheceu ser a sua, respondendo um determinado "Sim".
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A casa ficava perto e foram a pé. Ele segurou sua mão, que estava fria e trêmula e ela deu a si mesma um chute mental por parecer tão tensa enquanto ele se msotrava tão à vontade.
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Chegaram. A casa estava vazia, deviam estar todos na balada. Marcos foi à cozinha pegar as cervejas enquanto ela roía as unhas de porcelana que colocara para acabar com o hábito de roer unha.
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Sentaram-se no sofá, conversando sobre trivialidades, e ela pôde finalmente observá-lo sem parecer indiscreta. Os mesmos olhos que pareciam despí-la despudoradamente. Ele sempre tivera aquela cicatriz no maxilar? Era tão sutil. Estava mais másculo, mas macho. E ela podia aspirar seu perfume, o mesmo que se esforçara por enterrar e agora revivia todas as lembranças ardentes.
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Difícil dizer de quem foi a iniciativa. Mas logo estavam em um dos quartos, rolando na cama, ele afundando o rosto em seus seios, ela abraçando-o com seus braços e coxas. Ele puxou seu cabelo para trás forçando-a a levantar a cabeça, e cobriu seu queixo e seu pescoço de beijos e mordidinhas. Sentiam a pele arrepiada apesar do calor crescente e sentiam fome do corpo um do outro. Se amaram de maneira selvagem, como se naqueles poucos momentos pudessem afogar a saudade, a mágoa, e recuperar cada dia dos últimos cinco anos.
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Após esse primeiro momento, ela entregou-se às lágrimas. Amava-o. Ele sabia que ela o amava. Amava-a também, e ela sabia que era amada. E no entando... amor não era suficiente. Ela não era suficiente para que ele abandonasse os ímpetos de liberdade que pulsavam em seu íntimo. Quis explicar, quis fazê-la entender, quis secar suas lágrimas, mas apenas a abraçou forte, beijando sua cabeça e acariciando suas costas úmidas.
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Por fim, pegaram no sono.
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4h00 ela acordou com um sobressalto. Era realmente ele que estava ali, ressonando tão tranqüilamente com ela nos braços. Levantou-se sem fazer barulho e ficou ali em pé, nua, a observá-lo dormir como tantas vezes fizera.
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Vestiu-se e foi embora. Não voltaria a vê-lo. Não suportaria outra despedida.
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Marcos fingiu não escutar a porta se fechando quando ela deixou o apartamento. No dia seguinte mudou-se novamente de endereço. E no íntimo, sabia que a denominação de "Lar" se resumia ao corpo dela.